Filósofos me intrigam porque sempre fui muito encafifado com como ganhar a vida. O tempo todo achei que precisava produzir algo prático que interessasse tanto às pessoas que elas quereriam gastar seu rico dinheirinho em troca. Não entra redondo na minha cabeça o fato de que os filósofos ganhavam sua vida, já na antiga Grécia, trocando pensamentos por moedas de ouro e prata. Pense bem, aquele povo guerreando contra as hordas bárbaras do norte e gastando dinheirinho com idéias, explicações e, o que é pior, dúvidas existenciais?
Dia desses, um de meus filhos me regalou um livrinho sobre os antecedentes da filosofia grega. Imagine o nó quando li como a coisa vinha de muito antes do Sócrates!
No começo, minha dúvida existencial não era a dos filósofos: doncovim, queincossô, proncovô (mineiro também filosofa, uai!). Minha pergunta era outra: como é que aqueles camaradas conseguiam viver de vender idéias, enquanto eu tinha que ralar todo santo dia para garantir o leite em casa? O que a família e os amigos achavam deles? No fundo, eu queria mesmo era descobrir como viver de vento, mas viver bem e ficar famoso por isto.
Sim, eu li O Mundo de Sofia, como todo mundo. Foi uma boa tentativa, mas confesso que levei uma surra - da metade para o fim, tudo ficou bem mais complexo. Depois comecei a explorar uma coleção aqui de casa, livros sobre os grandes pensadores. Começa com o Sócrates, naturalmente, e vem vindo até os mais recentes. Em um relance, alguns nomes são enganosos: Rousseau (um soviético en avant?), Kant (pensou sobre o que pode e o que não pode?), Bacon (um inglês gordinho?). Outros, a gente estudou no colégio: Maquiavel (o mais maquiavélico de todos), Marx (inaugurou o marxismo) e Descartes (tudo tem uma causa, é lógico). Mas, como entender um sujeito que se chamava Wittgenstein? E o que Santo Agostinho está fazendo no meio dessa turma de descrentes?
Houve um que despertou minha simpatia. Schoppenhauer serviu de nome de uma choparia perto de casa, aqui em BH. Um bom nome, aliás. Os outros – Hume, Hobbes, Hegel – não serviriam de nome nem para padaria. Você compraria aspirina na Farmácia Locke atraído pelo nome?
Li A Cura de Schoppenhauer, e aprendi um bocado sobre esse filósofo que inspirou um outro mais famoso, o Nietzche, além do Freud. Agradeçamos ao autor Irving Yalom, psiquiatra, por ter encontrado uma fórmula inspirada de contar a história da vida do filósofo. Recomendo. Escolhi um fragmento para você:
“A vida pode ser comparada a um bordado que no começo vemos pelo lado direito e, no final, pelo avesso. O avesso não é tão bonito, mas é mais esclarecedor, pois deixa ver como são dados os pontos.”
A filosofada chave do Schoppenhauer foi: se tudo o que está a nossa volta nos chega através dos sentidos – interpretações da realidade, portanto –, só sobre o que está dentro de nós é que podemos pretender ter domínio.
Ao final de seu estágio conosco na FDC, o Almir deu uma bela filosofada em sua mensagem de despedida. Estudante de engenharia mecânica, embananava-se sempre que os amigos lhe perguntavam o que têm a ver engenharia mecânica e sustentabilidade. Até que sacou que a pergunta estava errada. Deveria ser: o que têm a ver o engenheiro mecânico e a sustentabilidade. Genial!
Uma empresa não é sustentável porque o dono quer. Não é de cima para baixo que se joga esse jogo. É de dentro para fora. De dentro das pessoas para a empresa, de dentro da empresa para o mundo. Sustentabilidade exige paixão pelo futuro, por si e pelos outros. O resto é ilusão.
Ah, antes que eu me esqueça. O Schoppenhauer viveu da herança do pai.