A dor é inevitável, o sofrimento é opcional - por Renata Drummond

June 24th, 2010

Li estes dias um poema de Drummond que finaliza: “A dor é inevitável, o sofrimento é opcional”. A essência das palavras do poeta e a profundidade de seus versos conduziram-me a uma pluralidade de pensamentos e reflexões.

O sofrimento advém do medo e este procede na ignorância. É a ausência de conhecimento que nos desencoraja a arriscar e apostar no novo. A ignorância é o efeito da ilusão em detrimento da ação.

O fato é que sonhamos muito e agimos pouco. O que causa a dor é a percepção de que perdemos vida quando o sonho se desfaz. É tomarmos consciência de que poderíamos ter de fato efetivado o que queríamos e que por falta de atitude e coragem não fizemos.

Todo indivíduo pode optar entre sofrer ou não com o que lhe causou dor. As condições que determinam o potencial desta escolha competem ao autêntico desejo de mudança interna. As pessoas inteligentes desfrutam do aprendizado adquirido em cada experiência vivida, tenha sido ela positiva ou não. O sofrimento é causado pela não aceitação do erro da ilusão. É quando o ego se sobrepõe à intuição.

Mais inteligentes ainda são aqueles que fazem da vida um sonho e do sonho a vida. São aqueles que imaginam seu universo perfeito e existem na imperfeição das tentativas e na incerteza da ousadia. A ilusão é uma dissimulação da mente, já o sonho é uma composição, um processo artístico, potencialmente real. Seres que derrotam suas aversões consideram naturais os entraves circunstanciais.

Se “o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos e na prudência egoísta que nada arrisca”, é preferível escolher entregar-se à aspiração de viver na conferência de atitudes convictas e fazer da realidade a Escola das Fantasias.

Navegando em oceanos azuis - por Renata Drummond

March 19th, 2010

A História pode nos ajudar a pensar o futuro. Poderíamos nos arriscar a prevê-lo se levássemos em consideração os inúmeros exemplos de soberbas criações, de grandiosas obras de arte e de geniais instaurações. Não me refiro somente às atemporais invenções, mas também às reinvenções, que substituem ou esmeram as iniciais concepções.
Grandes idéias nascem da necessidade de inovar e arriscar dentro de um espaço inexplorado. Guy Laliberté, antes engolidor de fogo, recriou o Circo, deflagrando por todo o mundo com uma das maiores empresas exportadoras do Canadá, o Cirque du Soleit. O exemplo é ainda mais distinto porque Guy reinventou uma modalidade de um setor em declínio, em uma época em que a indústria circense indicava queda em público e prestígio.
A Criação precisa ser ousada. Fazer História e prevalecer no futuro é obter sucesso na absorção de uma área. Portanto, não adianta querer explorar espaços já conhecidos. No best seller  “A Estratégia do Oceano Azul”, W. Chan Kim e Renée Mauborgne ilustram casos de empresas bem sucedidas que navegam por oceanos bem distantes dos aglomerados de concorrentes que brigam por vantagens competitivas em um mercado já saturado. O livro também sustenta a idéia de que no futuro, movimentos estratégicos distante de concorrências e lutas por vantagens competitivas, ditarão os novos líderes da história.
O desejo de derrotar o inimigo é o mesmo que admitir os mais relevantes e restritivos fatores de conflito. Declarar esta guerra é conter a própria força que pode ser crucial  para colonizar um espaço e fazer diferente.
Charles Chapling soube imortalizar seu nome ao levar risos e alívios na época em que o mundo se dilacerava aos prantos na primeira guerra mundial.  O gênio do cinema mudo atuava, dirigia, produzia, escrevia e até compunha as trilhas de seus filmes.  Em “O Grande Ditador”, Chapling faz uma reflexão que converge duas épocas – a Revolução Industrial e os tempos de hoje – em uma sabedoria que servirá como conclusão deste texto: “Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido”.

Por acreditar, por saber e por fazer - por Renata Drummond

March 8th, 2010

Dinamarca, 8 de março de 1857. Um grupo de 130 tecelãs sofreram um dos maiores atos de repressão e crueldade da história. As operárias que reivindicavam redução da jornada de trabalho e aumento do salário – que representava 1/3 do que o homem recebia para executar a mesma tarefa – tiveram seus corpos trancafiados, e posteriormente queimados. Este marco foi a causa para o decreto que oficializou, somente em 1975, o dia Internacional da Mulher.
O fato propagou por todos os espaços constitutivos, ecoando no mundo o fim do machismo e do sexo frágil.
No dia de hoje, 8 de março de 2010, quero parabenizar as mulheres não somente pelas conquistas históricas e pela série de conquistas que dizem respeito ao nosso posicionamento na sociedade. Quero reverenciá-las por permitir a vida. Por fazer com que esta seja conduzida para um paraíso sensitivo. Por amar, com a carne e com a alma. Por aguardar momentos ainda mais gloriosos do que os perfeitos instantes intermináveis que já se passaram. Por acreditar, por saber e por fazer.
A exposição “O mundo mágico de Marc Chagall - o Sonho e a Vida”, mostra um vídeo de sensibilidade extrema sobre a vida do artista. Já no final da entrevista, Roberto D´Ávila pergunta a Marc: Qual a coisa mais importante da vida para o senhor? E ele responde sem hesitação: L´AMOUR. Se você tem uma mulher a quem amar, isso é tudo.

Amar é… - por Renata Drummond

March 5th, 2010

Amar é poder expressar o que temos de mais lindo dentro de nós.  Amar é preparar o nosso brilho para doá-lo a outra pessoa. Ou simplesmente dilatar o nosso íntimo abrigo ao resguardo que nos permite a vida. Sim. Estou falando do amor à nossa terra, à nossa casa.
Há incoerência em amarmos nossos entes e descuidarmos da atmosfera que permite este fenômeno. O clima que aquece o coração é o mesmo que nos toca a pele. A luz dos nossos olhos nasce do mesmo sol que aclara a existência. Nosso coração pulsa no ritmo do universo. Tão abrangente e ilimitado é o amor, que eu me pergunto: Onde é que os seres humanos o estão escondendo? E porque há tanto movimento que contraria a nossa mais pura essência?
Os antigos espontaneamente reverenciavam a Natureza. Na prática do Yôga milenar,  a mais importante técnica denominada pújá (retribuição de energia),  tem a sua primeira parte dedicada ao local da prática, como um agradecimento ao ambiente, ao espaço que acolhe. Milhares de anos depois, uma reflexão pra lá de moderna foi deixada para quem assistiu ao filme Avatar com sensibilidade e profundidade.  A conexão com a natureza está sendo perdida, e junto dela, o nosso amor pela mãe terra.
Existem ingredientes infalíveis para a formatação do puro afeto.  Porém, não há receita. Amar é intrigantemente distinto para cada um. Há tantas maneiras de amar quantos seres vivos existentes. Se cada ser humano declarasse seu amor efetivamente todos os dias pelo seu lar, poderíamos retomar o acoplamento com nossas origens. Um bom exemplo de amor refletido em ação efetiva foi dada recentemente na Estônia. Um grupo de 20 visionários resolveu dar fim ao depósito lixo ilegal em suas florestas, que ocupava metade do território do país. O resultado foi no mínimo emocionante: 4%  da população se uniu e conseguiu livrar a linda paisagem da imundice dos lixões.
Um olhar profundo, um toque de carinho, um sorriso verdadeiro e um abraço por uma causa universal, são preciosidades da alma. Lembre-se disso todos os dias ao dar bom dia pra quem quer que seja.

Imagem, escolhas e atitude - por Letícia Matos

February 23rd, 2010

Pense bem se a imagem que você quer para si concorda com a imagem que os outros têm de você. Quantas vezes alguém disse para você que determinada peça ou objeto tem a sua cara e você, pasmo, pensa: De onde essa pessoa tirou que isso tem haver comigo?

Se isso acontece com freqüência, atenção! Reveja a imagem que tem transmitido. É claro que o expectador em sua louca sanidade pode interpretar o seu estilo da forma que quiser, mas observe a incidência dessas interpretações errôneas. Quanto mais você conhece seu corpo, suas emoções, suas idéias e objetivos, mais facilmente você imprime estes quesitos no seu estilo. Aquilo que faz parte de você e que é único se manifesta em pequenos detalhes na sua imagem e conferem personalidade ao seu estilo.

De nada adianta usar roupas coloridas se você está triste e não sorri. Você  não passará a imagem de uma pessoa divertida. No entanto, mesmo em um traje sóbrio, você demonstra sua leveza através da atitude. Esta sim é o ingrediente básico da sua imagem e estilo.

Observe mentalmente a imagem que você quer transmitir, em seguida, verifique se ela combina com você. Toda mudança deve acontecer de dentro para fora. Portanto, se o visual que você pretende não tem nenhum pouco haver com o que você é, trate de rever seus conceitos ou correrá o risco de buscar uma identidade a cada estação.

A atitude de quem se preocupa consigo, com os outros e com o mundo é coerente com o seu visual. Pense nisso, mude o mundo a partir das suas ações. Transforme. Reutilize. Aproveite. Invente!


Somos muito do que vestimos - por Renata Drummond

February 16th, 2010

Embora os anos 50 tenham representado o marco do consumismo juvenil, foi nos anos 60 que o “conceito” de juventude foi materializado. Após a década que apontou o nascimento do rock n’roll e da geração baby boom, toda uma gama de questionamentos,  conflagrações e rebeldias pertencentes à classe juvenil, veio à tona com uma força que movimenta drasticamente, até os dias atuais, o ofício da moda.
Os anos 60 excitaram a indústria fashion com a mini-saia de Mary Quant e o prêt à Porter de Yves Saint Laurent. A alta-costura  teve seu universo desmembrado, ramificado e modernizado. Houve a democratização da moda e com isso uma maior possibilidade de escolha dentro deste sistema. Depois da aceleração da globalização (anos 80/90), a necessidade da dinâmica do consumo cresceu e as oportunidades para aquisições, referências e composições no universo da moda ficaram ainda mais abrangentes. 
A interligação e emancipação do sistema, amplia a visão de mundo e provoca diferentes interpretações no que se refere ao estilo de vida. Conseqüentemente, temos múltiplas expressões da indumentária manifestadas nos indivíduos. Sentimentos, pensamentos e crenças transcorrem explanados na roupa que se veste. Quando estas manifestações são compatíveis, forma-se um grupo específico de estilo, e a partir daí, subdivisões.
Quando os grupos de estilo deram a cara ao mundo, eles representaram um movimento radical característico que segue um padrão de comportamento e não se flexibiliza.  Tais grupos serviram para contribuir na conceituação da juventude e para a compreensão da sua  segmentação. Ainda hoje, eles existem, mas a diversidade de estilos traduzida  em uma só personalidade, na atualidade, é mais freqüente.  
O “conceito” de juventude surgido no século passado, renasce na sociedade pós-moderna dia após dia. A rebeldia, obstinações e ideologias são explanados em formatos muitas vezes imprevisíveis. Podemos criar nossa própria maneira de vestir utilizando-nos de elementos como a cor, o caimento, a forma, a harmonia e a textura presentes nas roupas. O arranjo da blusa com o sapato, a calça e mais o corte de cabelo representam alguns dos elementos determinantes que compõe a orquestra de valores do ser humano.

Sustentabilidade - por Renata Drummond

November 16th, 2009

A sustentabilidade está relacionada aos conceitos econômicos, sociais, culturais e ambientais dentro da sociedade. Ela propõe a conciliação contínua e harmônica das atividades humanas de forma que estas supram as necessidades do presente, sem comprometer as necessidades das gerações futuras. Seja qual for a atividade que o ser humano se dedique, ele deve explorar o máximo seu potencial e suas habilidades, mas deve estar sempre atento à preservação da biodiversidade e ecossistemas.
Diversos níveis organizacionais são abrangidos pela sustentabilidade. Este conceito sistêmico começa em sua própria residência e se expande por todo planeta. Aplicado coerentemente, gera um impacto favorável à qualidade de vida das gerações atuais e futuras.
Mas como colocar em prática a sustentabilidade? Para um negócio ser considerado sustentável, ele precisa considerar quatro requisitos essenciais: deve ser ecologicamente correto, economicamente viável, socialmente justo e culturalmente aceito. Mas antes de pensar em empreendimento sustentável é mais importante trazermos a aplicabilidade deste conceito para nossas vidas pessoais. É preciso ser uma pessoa sustentável. Comece perguntando-se: como é a sua relação com a sua casa? Com a sua família? Com os seus amigos? Como você trata o porteiro do seu prédio? Ou o padeiro da esquina? Você recicla o lixo da sua casa? E o do local onde você trabalha? Como é a sua alimentação? Ela é sustentável ou você contribui para devastação ambiental na Amazônia com o cultivo da pecuária? O que você veste vem da onde? Você questiona esse tipo de coisa? Acredito que este é um bom início para a revolução comportamental das sociedades a favor de um futuro sustentável.
Podemos adotar medidas simples que causam imenso impacto a longo prazo como por exemplo a economia e reciclagem de papel, uso racional e econômico de água e energia elétrica, utilização de transportes públicos quando possível, etc.
Nosso estilo de vida determina a realidade ao nosso redor. E o nosso posicionamento diante da realidade que construímos impacta diretamente possibilidades de mudanças relevantes para os nossos descendentes.
Hoje, a face mais emergente para uma transformação de comportamento se relaciona ao meio ambiente, principalmente por causa do aquecimento global, uma dramática conseqüência pelo que fizemos e deixamos de fazer. Podemos agir, mesmo que de forma indireta, nos políticos que elegemos e na escolha dos produtos que compramos. O setor político-econômico está contido em proeminentes decisões que cabem a cada cidadão, e que dizem respeito a modelos educacionais, planos de saúde e projetos de desenvolvimento.
Como amante do rock, quero encerrar este texto com uma frase de Bono Vox. Ativista cheio de atitude, o vocalista do U2 disse certa vez: “Lar é onde o coração está.” Para mim esta citação transfigura a essência do que é pensar globalmente e agir localmente.

Terra do Fogo – por Andréa Dip

November 16th, 2009

Patrimônio da Amazônia é queimado, destruído e saqueado por estrangeiros. Até quando a floresta aguentará?
A Amazônia, maior floresta tropical do mundo, está acabando. São mais de 800 mil quilômetros quadrados devastados e, a cada ano, perdemos o equivalente a duas vezes o tamanho da cidade de São Paulo para as queimadas. Até 2005, 10 espécies de animais já estavam extintas e mais 342 ameaçadas de sumir.
O relatório GEO Amazônia, divulgado em fevereiro pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), coloca o Brasil em posição vergonhosa ao traçar o descaso com que a floresta vem sendo tratada. Ocupamos o quarto lugar em emissão de gases de efeito estufa do planeta: 500 milhões de toneladas de carbono são lançadas, anualmente, na atmosfera em decorrência do corte e das queimadas na floresta amazônica, o que contribui para o aquecimento global. Um outro estudo, da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), mostrou que 42% de todo o desmatamento ocorrido no mundo entre 2000 e 2005 aconteceu no Brasil. Mas se o Governo brasileiro e a sociedade não se dão conta da riqueza que a Amazônia abriga, o resto do mundo dá. E tem tentado “internacionalizar” o que é nosso ao roubar plantas, animais e até o conhecimento dos índios. No ano passado, o famoso biólogo e pesquisador alemão Heiko Bleher e a fotógrafa Natalva Kardina, do Uzbequistão, foram presos por agentes federais quando tentavam embarcar para os Estados Unidos levando várias espécies de peixes sem a devida autorização do Ibama, o que configura biopirataria.
Há décadas ambientalistas e pesquisadores lutam para que a Amazônia deixe de ser terra de ninguém. Mas a verdade é que missionários, madeireiros e fazendeiros ainda queimam desordenadamente sem precisar responder à Justiças. O coordenador da Campanha da Amazônia do Greenpeace, Marcio Astrini alerta para o mais grave: “O volume de dinheiro que o Governo investe em desmatamento através de formas de créditos para fazendeiros é muito maior do que o dinheiro que investe na recuperação da floresta.” Segundo Astrini, cerca de 80% das áreas desmatadas estão relacionadas à pecuária. “São terras sem registro, o Governo não sabe de quem são, não se paga imposto sobre isso”, aponta. “Hoje, calculamos o desmatamento pelo preço dos produtos produzidos lá. Se a cotação deles aumenta, há mais desmatamento.
A Amazônia está nas mãos do mercado, e precisamos mudar isso. Com o uso responsável das terras daria para dobrar a produção de alimentos do País. O Governo precisa tomar conta”, cobra. Mas a floresta tem salvação? Os especialistas se dividem. Cientistas preveem que o aquecimento global deve destruir 85% da Amazônia em apenas um século e, pelas contas de economistas, com R$ 17 bilhões ao ano – pouco mais que o custo anual do Bolsa Família – salvaríamos nosso tesouro verde em 20 anos.
Luis Alberto Oliveros, coordenador de Meio Ambiente da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica, lembra da importância da cooperação internacional. “A Amazônia não é só Brasil. Ela é uma unidade natural que precisa de um nível de gestão coordenada entre os oito países que a compartilham”, afirma. Quem vive lá, como o fotógrafo Pedro Martinelli não tem boas esperanças: “Enquanto o pessoal não botar o pé no mato para ver de perto o que está acontecendo, não vai ter jeito”, lamenta. Mas em um ponto todos concordam: já passou da hora de agir.

matéria publicada no site http://andreadip.wordpress.com

Filósofos e Sustentabilidade - por Cláudio Boechat

November 16th, 2009

Filósofos me intrigam porque sempre fui muito encafifado com como ganhar a vida. O tempo todo achei que precisava produzir algo prático que interessasse tanto às pessoas que elas quereriam gastar seu rico dinheirinho em troca. Não entra redondo na minha cabeça o fato de que os filósofos ganhavam sua vida, já na antiga Grécia, trocando pensamentos por moedas de ouro e prata. Pense bem, aquele povo guerreando contra as hordas bárbaras do norte e gastando dinheirinho com idéias, explicações e, o que é pior, dúvidas existenciais?
Dia desses, um de meus filhos me regalou um livrinho sobre os antecedentes da filosofia grega. Imagine o nó quando li como a coisa vinha de muito antes do Sócrates!
No começo, minha dúvida existencial não era a dos filósofos: doncovim, queincossô, proncovô (mineiro também filosofa, uai!). Minha pergunta era outra: como é que aqueles camaradas conseguiam viver de vender idéias, enquanto eu tinha que ralar todo santo dia para garantir o leite em casa? O que a família e os amigos achavam deles? No fundo, eu queria mesmo era descobrir como viver de vento, mas viver bem e ficar famoso por isto.
Sim, eu li O Mundo de Sofia, como todo mundo. Foi uma boa tentativa, mas confesso que levei uma surra - da metade para o fim, tudo ficou bem mais complexo. Depois comecei a explorar uma coleção aqui de casa, livros sobre os grandes pensadores. Começa com o Sócrates, naturalmente, e vem vindo até os mais recentes. Em um relance, alguns nomes são enganosos: Rousseau (um soviético en avant?), Kant (pensou sobre o que pode e o que não pode?), Bacon (um inglês gordinho?). Outros, a gente estudou no colégio: Maquiavel (o mais maquiavélico de todos), Marx (inaugurou o marxismo) e Descartes (tudo tem uma causa, é lógico). Mas, como entender um sujeito que se chamava Wittgenstein? E o que Santo Agostinho está fazendo no meio dessa turma de descrentes?
Houve um que despertou minha simpatia. Schoppenhauer serviu de nome de uma choparia perto de casa, aqui em BH. Um bom nome, aliás. Os outros – Hume, Hobbes, Hegel – não serviriam de nome nem para padaria. Você compraria aspirina na Farmácia Locke atraído pelo nome?
Li A Cura de Schoppenhauer, e aprendi um bocado sobre esse filósofo que inspirou um outro mais famoso, o Nietzche, além do Freud. Agradeçamos ao autor Irving Yalom, psiquiatra, por ter encontrado uma fórmula inspirada de contar a história da vida do filósofo. Recomendo. Escolhi um fragmento para você:
“A vida pode ser comparada a um bordado que no começo vemos pelo lado direito e, no final, pelo avesso. O avesso não é tão bonito, mas é mais esclarecedor, pois deixa ver como são dados os pontos.”
A filosofada chave do Schoppenhauer foi: se tudo o que está a nossa volta nos chega através dos sentidos – interpretações da realidade, portanto –, só sobre o que está dentro de nós é que podemos pretender ter domínio.
Ao final de seu estágio conosco na FDC, o Almir deu uma bela filosofada em sua mensagem de despedida. Estudante de engenharia mecânica, embananava-se sempre que os amigos lhe perguntavam o que têm a ver engenharia mecânica e sustentabilidade. Até que sacou que a pergunta estava errada. Deveria ser: o que têm a ver o engenheiro mecânico e a sustentabilidade. Genial!
Uma empresa não é sustentável porque o dono quer. Não é de cima para baixo que se joga esse jogo. É de dentro para fora. De dentro das pessoas para a empresa, de dentro da empresa para o mundo. Sustentabilidade exige paixão pelo futuro, por si e pelos outros. O resto é ilusão.
Ah, antes que eu me esqueça. O Schoppenhauer viveu da herança do pai.

Do low carb para o low carbon - por Cláudio Boechat

November 16th, 2009

A criação de conceitos inovadores para situações novas ajuda a identificar sociedades mais sofisticadas. Não me refiro à sofisticação vazia do aparente, do externo. Refiro-me à capacidade de lidar com a complexidade do novo, do desconhecido, à consciência coletiva que se traduz em atitudes conseqüentes e responsáveis de uma nação.
Encontrei um exemplo disto em meu recente retorno ao Canadá, depois de 10 anos. Desta vez, fui para uma assembléia da Iniciativa da Liderança Globalmente Responsável. (Explico: trata-se de uma coalizão internacional de empresas e escolas, que promove uma educação mais responsável para executivos empresariais.
Foi na televisão de Kingston, na beira do Lago Ontário, que ouvi pela primeira vez a expressão “racismo ambiental”. O conceito traduz o fato de que algumas pessoas são submetidas a condições ambientais adversas devido a sua raça. Por exemplo, minorias hispânicas nos Estados Unidos obrigadas a viver em ambientes urbanos degradados.
O Canadá é um país no mínimo emblemático. Durante a segunda guerra mundial, deu asilo à família real holandesa, fugida dos exércitos nazistas alemães. Eis que a rainha se engravida, inesperadamente. Essas coisas - mulheres se engravidando inesperadamente - aconteciam mais naqueles dias. A situação era delicada, porque a constituição holandesa rezava que não seria herdeiro da coroa o filho real não nascido em território do reino. Problema insolúvel? De jeito nenhum. O Canadá simplesmente doou para a Holanda as terras do hospital onde ocorreria o parto majestático! Eterna gratidão é o que demonstra o povo holandês, ao presentear os canadenses todos os anos com milhões de bulbos de tulipas. Lá pelos meses de março, abril, tulipas multicoloridas embelezam praças e parques ao norte da América, enfeitados com o sinal da humanidade solidária e fraterna.
Outra história. Em 1992, hospedamos no Rio a Conferência Eco 92. Apresentou-se a menina Severn Suzuki, canadense de 13 anos, que trouxe uma mensagem das crianças canadenses aos delegados das várias nações presentes nas discussões que aprovaram a Agenda 21. E ela fez sua parte! Cobrou dos adultos as conseqüências da exploração do meio ambiente, a extinção de espécies, a destruição das florestas, as doenças dos animais afetados por produtos químicos, o desleixo com as crianças pobres, os gastos militares com armas e guerras, a hipocrisia dos políticos. Sua fala acabou sendo um grito das crianças do mundo inteiro e repercute até hoje, em vídeo disponível no youtube. Aquela verdadeira consciência metralhadora adolescente emocionou os presentes. Terminou recomendando um mínimo de coerência aos adultos do mundo inteiro: “façam com que seus atos se aproximem de suas palavras”.
A humanidade viverá, nas próximas décadas, uma prova de fogo: lidar com as mudanças climáticas. Caberá ao Canadá um papel crucial nessa nova história. As mudanças vão afetar muito aquele país do norte: o degelo das regiões mais ao norte exporá riquezas minerais até então inacessíveis, e tornará mais habitáveis terras até hoje ocupadas por povos muito especiais e raros: os esquimós. Uma sociedade tão sofisticada poderá mostrar caminhos coletivos para o resto do mundo.
Uma idéia me surgiu quando vi, em algum cardápio canadense, produtos low carb, identificando alimentos com baixo teor de carboidratos. Quem sabe se não será lá cunhado o conceito do low carbon, que servirá para identificar produtos que, em sua produção, gerarem baixa emissão de gás carbônico?